De uma foto ao Quênia*

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Não sou do tipo de pessoa que se esforça para alcançar os sonhos. Também não sou alguém cujo maior sonho é morar fora do país. Porém, quando estava na adolescência, sonhei em ir à África como voluntária, e me esqueci disso durante a faculdade. Uma foto de um garotinho africano passou a enfeitar a parede do meu quarto, como um lembrete do sonho.

Depois de formada, percebi que seria o momento certo para passar um tempo fora do Brasil. Inscrevi-me em um site que conecta organizações e voluntários. Foi uma organização do Quênia quem primeiro fez contato comigo. Por seis meses, chequei a confiabilidade dela e decidi a data de embarque. Quase morri de medo. Pensei em desistir, mas fui. Embarquei para lá em junho de 2013.

Levava comigo muitas vontades: ser útil, ver sorrisos, aproximar-me de Deus, aperfeiçoar meu inglês, conhecer outra cultura. Entretanto, ao chegar lá, nos primeiros dias a vontade era voltar para casa. Fui recebida por uma voluntária inglesa doente, o jantar era um macarrão sem gosto, não havia eletricidade, eu não teria cama. Peguei malária no meu sexto dia lá.

Nas três semanas seguintes, morando com várias pessoas e fazendo trabalho braçal, aprendi a carregar água, fazer tijolo, limpar casa e ajudar na cozinha.

Em agosto, passamos o mês inteiro sem água corrente. Além disso, tive de aperfeiçoar minhas habilidades de transportar água, tive de aprender a confiar em Deus. Às vezes, não era a gente que ia até a água, mas a água que ia até a gente (ô chuva boa!).

Meu tempo foi ocupado com tarefas como fotografar, elaborar relatório, fazer pesquisa com os voluntários quenianos e elaborar uma apostila com temas de palestras. Acompanhei a equipe da creche da organização que levou cerca de quarenta crianças para o primeiro passeio na cidade grande, onde andaram de barco pela primeira vez e brincaram no parquinho. Elas pareciam assustadas, animadas e, depois, exaustas.

Enquanto isso, fiz amizades com pessoas de todos os continentes e ganhei amigos quenianos. Pessoas que eu não conhecia passaram a saber meu nome.

Assim, entre realizações e decepções, fui ficando. O que seriam três meses se estendeu para cinco meses e meio. Deixei o Quênia em novembro de 2013.

Sinto saudade de me preocupar apenas com o que realmente importa. Quando me perguntam se eu vi muita pobreza lá, eu digo que depende do conceito de pobreza. Os quenianos pareciam muito bem vivendo do jeito deles, com poucos bens materiais e com alimento cultivado nos próprios terrenos. E isso pra mim é uma riqueza. Ver crianças que ainda brincam de roda é encantador.

Muita coisa do que vivi lá se perdeu. Voltei a acordar tarde, a tomar banho quente e a gastar horas na internet. Sinto-me preguiçosa. Porém, estou mais grata e confiante em Deus. Confio que ele vai providenciar a água mesmo nessa seca. Agradeço pela cama quente, pela comida gostosa e pela saúde. Não paro de agradecer-lhe pela experiência no Quênia.

Passei a admirar as pessoas que continuam felizes buscando água diariamente, os voluntários que tentam melhorar a saúde e a educação, os missionários que aceitam conviver com outras culturas, os cristãos que afirmam que pessoas são mais importantes que coisas.

Aquela foto do menininho africano continua a enfeitar a parede do meu quarto. Acabei realizando um sonho.

*por Bárbara Almeida.