Meu professor de geografia

Eu, lá pela 8ª série de ensino fundamental, era o melhor aluno de Geografia, com as melhores notas e, por isso, o predileto do professor. Naquela época, imaturo, ainda julgava ter as melhores notas e o topo do pódio, e, logo, o lugar de destaque, como algo que valia mais do que realmente vale. Vale, claro, mas não tanto quanto as pessoas pensam. Eu costumava tirar nota máxima em todas as provas e uma das estratégias de estudo que utilizava era, sozinho, em casa, fazer um questionário o mais extenso possível. Munido do livro e do caderno, imaginava toda e qualquer pergunta que o professor pudesse elaborar. A técnica era eficiente: em geral eu já tinha formulado e respondido a pergunta que apareceria na prova, e por fazer isso já estava com ela assimilada e memorizada, e ainda era rápido para responder. A prova não era novidade e meu desempenho era tão bom que parecia que tinha tido acesso prévio a ela. Na verdade, eu tinha. Não era mágica, como pensavam meus colegas, ou genialidade, como pensava meu professor.

Não me recordo de compartilhar muito o meu questionário. Por um tempo, gostava de ser o primeiro, e depois, mesmo quando comecei a ver que dividir é algo que soma ou multiplica, a maior parte dos colegas achavam cansativo estudar em um questionário tão longo. Eles preferiam a comodidade e as notas baixas ou medianas. Tudo tem seu preço, afinal.

O curioso é que certa feita estava em sala e um outro aluno, que desconhecia minha técnica, pediu ao professor de Geografia se ele poderia passar um questionário para os alunos estudarem para a prova. O professor, de quem eu gostava, fez uma cara de desprezo, quase de nojo, dizendo que apenas alunos fracos precisavam de questionário. Os bons alunos estudavam e aprendiam sem isso! Confesso que, marota e malvadamente, interrompi o professor e disse que eu estudava justamente por questionários (e todos sabiam que rotineiramente a maior nota da turma era a minha). O professor ficou completamente desconcertado e meu coleguinha esboçou um aliviado sorriso.

Sobre esse evento, três notas.

Primeiro, já naquela época não gostava de ver alguém menosprezar outrem, ainda mais em situação que expressasse alguma inferioridade de armas. Professor ironizar aluno, ou professor já estabelecido ironizar professor em início de carreira, é algo que não aceito. Meu lado cristão assim como meu lado juiz me fazem não ficar silente.

Segundo, na época, ainda gostava muito de enfrentar os professores. Arrogante, como é comum nas pessoas com QI acima da média (aliás, nas pessoas com qualquer coisa acima da média: cultura, dinheiro, beleza, poder), e já com notas acima das que tinham meus colegas, eu esgrimava com os professores. Aquilo, todos conhecem, de o aluno fazer uma pergunta que o professor não sabe. Eu tinha isso. Logo, provar que o professor estava errado sobre a validade dos questionários era não só uma defesa do colega mas também um prazer pessoal. O tempo e muito sofrimento recebido e causado terminaram por, felizmente, me ensinar que devemos ser humildes e que os professores não existem para serem vencidos, mas sim ouvidos.

Terceiro, aquilo que era desprezado pelo meu professor como algo “menor” no mundo do estudo era, na prática, eficiente, e isso o chocou. Ele desprezava algo que era eficiente, simples assim. Os mais estudados costumam ir se encastelando. Como o intelectual admira o saber e, logo, a capacidade de aprendizado, tende a, se não se cuidar, começar a desprezar quem não ocupa os mesmos patamares intelectuais. Assim como os ricos financeiramente tendem a, se não se cuidarem, desprezar os mais pobres, igual fenômeno ocorre entre os plasticamente belos, entre os poderosos, e assim vai a humanidade; vaidosa e, do ponto de vista humano, pobre. Pobres homens ricos, pobres homens poderosos, pobres homens sabidos e estudados, pobres homens bonitos.

Um exemplo do equivocado desprezo que muitos intelectuais têm em relação à neuroaprendizagem é como tratam os mapas mentais. Esta técnica foi originalmente desenvolvida por Tony Buzan, e é de extrema eficiência, mas constantemente objeto de ironias daqueles que não precisam dela. Sim, alguém com maior facilidade de aprendizagem pode dispensar os mapas mentais. Se os usassem, tais pessoas, já muito capazes, seriam ainda mais eficientes, mas não querem usar essas coisas esquisitas, diferentes do que sempre conheceram. O que falta dizer é que os mapas mentais são muito mais compatíveis com a rede neural do que as anotações blocadas, ou seja, o conhecimento da neurologia e da arquitetura natural do cérebro demonstram uma das razões da eficiência dos mapas mentais. Não deveriam ser desprezados, portanto. Mas os intelectuais, em especial os do elitista mundo do Direito, que pouco conhecem de neuroaprendizagem, gastam seu tempo ironizando quem usa técnicas úteis para democratizar o acesso ao conhecimento. Uma lástima.

Os mapas mentais fazem mágica ao utilizarem a mais sofisticada tecnologia da aprendizagem, mas enfrentam sábios que desprezam aquilo que parece algum tipo de “malandragem”.

Eu comecei a utilizar os mapas mentais intuitivamente e aperfeiçoei a prática quando conheci o trabalho de Tony Buzan. Tempos depois, conheci Felipe Lima, professor brasileiro que desenvolveu uma vertente peculiar e também muito eficiente do uso dos mapas mentais. Com ele, tive a alegria e a honra de publicar o livro Mapas Mentais para provas e concursos, que já teve várias edições e vendeu mais de 40 mil exemplares. Temos o depoimento de centenas de pessoas aprovadas em concursos e que nos agradecem pelos ensinamentos específicos ali contidos. Este livro é um dos vários livros que aprofundam o conhecimento que sistematizei e disponibilizei no livro Como passar em provas e concursos, que está indo para a 30ª edição, com mais de 200.000 exemplares vendidos e leitores satisfeitos e gratos. Aos que não estão preparados ainda para altas doses de tecnologia, disponibilizei um resumo da obra. Assim, levando o conhecimento em doses customizadas para atender à necessidade de cada aluno, continuo fazendo o que sempre fiz: buscando como ter sucesso nos desafios da vida.

Na infância, com questionários e desafiando o professor de Geografia. Mais maduro, com todo um sistema e apenas querendo ajudar os amigos e alunos. Quando a gente amadurece, passa a ver o mundo com mais amor e tenta ajudar quem vem atrás. Espero que você também siga esse modelo: aprenda, vença e passe a ajudar os demais. É assim que o mundo melhora.

William Douglas, professor, escritor e juiz federal/RJ.

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